Dom Vilsom Basso, bispo de Imperatriz, costuma provocar uma reflexão particularmente interessante no Dia de Finados. Lembra aos fiéis que aqueles que partem, segundo a promessa cristã, terão o privilégio de morar com Deus. Em seguida, faz uma pergunta aparentemente simples: quem gostaria de levantar a mão e partir, naquele mesmo instante, para morar com o Pai? Nenhuma mão se levanta.
Eis o paradoxo.
Não se trata necessariamente de falta de fé, tampouco de uma confissão de incredulidade. É apenas a manifestação mais sincera da condição humana. Queremos a eternidade, mas não desejamos abandonar o tempo. Aspiramos ao céu, mas nossos pés continuam apaixonados pela terra. E por quê? Seria o apego aos bens materiais? O receio de perder aquilo que acumulamos? O medo do desconhecido? Ou haveria, nessa resistência silenciosa, algo muito mais profundo do que a simples vontade de continuar vivendo? Penso que sim.
Afinal, amar a vida é uma maneira de amar a Deus. Quem contempla o nascimento de uma criança, quem se emociona diante de um reconcontro, quem conhece a ternura de um abraço ou a beleza de uma manhã não está necessariamente preso às coisas terrenas. Está, reconhecendo nelas a própria manifestação do divino.
Não desejamos permanecer apenas pelo que possuímos. Desejamos permanecer, sobretudo, por quem amamos.
E é justamente aqui que a morte se apresenta em sua dimensão mais dolorosa. Não é apenas o fim de uma existência. É a interrupção de uma convivência, como foi com Lourenço Galetti, com Celso Tomé Rosa, com Roberto Gelobom, com Gregório Sodré, com Chico Tiro, com o coronel Tabatinga, com Olimpio Bandeira, com Jair Rosignoli e mais recente, com Thayssa Mello. É a palavra que não foi pronunciada, o abraço que ficou para o amanhã, a cadeira que permanece vazia, o silêncio que se instala onde antes havia uma voz. A morte não leva somente quem parte. Leva também alguma coisa de quem fica.
Mas será que partir significa necessariamente desaparecer? Para a razão, a morte permanece como um dos grandes mistérios da existência. Para a fé, entretanto, ela não representa obrigatoriamente um ponto final. Pode ser uma passagem. Uma travessia. A possibilidade de um encontro que ultrapassa os limites da compreensão humana.
O próprio Cristo, diante da morte de Lázaro, chorou. E nesse gesto, uma das mais belas lições do Evangelho.
O Cristo que chora. Mesmo anunciando a ressurreição, Jesus não desprezou a dor da separação. Não condenou as lágrimas. Não exigiu que a fé eliminasse a saudade. Chorou porque amava.
Há, portanto, uma grande diferença entre aceitar a inevitabilidade da morte e desejar sua chegada. Saber que um dia partiremos não nos obriga a antecipar a despedida. A esperança na eternidade não diminui o valor da existência. O grande paradoxo humano, a meu ver, não é o medo de morrer, mas o desejo de permanecer, mesmo acreditando que aquilo que nos espera seja maior do que tudo o que deixaremos.
E há outra dimensão que merece ser considerada. Quando alguém parte, pensamos imediatamente na perda. Raramente pensamos na possibilidade de um encontro. Para quem fica, há a despedida. Para quem crer, pode haver a chegada. De um lado, a saudade; do outro, a esperança de uma presença que já não conhece as limitações do tempo. Não sabemos como será.
Não conhecemos a geografia da eternidade. Não sabemos se haverá reconhecimento, se os abraços serão possíveis, se as vozes conservarão a mesma ternura. A fé não nos oferece um mapa do infinito. Oferece-nos a esperança de que o amor não seja derrotado pela morte. E isso que verdadeiramente procuramos quando visitamos um cemitério no Dia de Finados. Não vamos apenas ao encontro dos mortos. Vamos ao encontro da memória. Conversamos silenciosamente com aqueles que já não podem nos responder. Levamos flores, acendemos velas, pronunciamos nomes. E, por alguns instantes, parece que a distância entre a vida e a morte se torna menor.
Ninguém desaparece inteiramente enquanto permanece vivo no amor de alguém. Volto, então, à provocação de Dom Vilsom Basso. Por que nenhuma mão se levanta?
Certamente porque ainda tenhamos muito a amar, muito a aprender, muito a perdoar. Porque existem crianças esperando nosso carinho, amigos aguardando nossa presença e sonhos que ainda não floresceram. A vida, apesar de suas dores, continue sendo uma experiência extraordinária. E Deus não nos tenha dado a existência para que passemos os dias desejando abandoná-la, mas para que saibamos vivê-la até o instante em que E"le próprio nos chamará
Finados, portanto, não é o dia da contemplação da ausência, é o dia da esperança. Afinal, se a morte é inevitável, por que transformá-la antecipadamente em derrota? Se a vida é passageira, por que não fazer de cada instante uma expressão de amor?
Entre a partida e o encontro existe um mistério que nenhuma filosofia conseguiu encerrar e que nenhuma ciência pretende ter definitivamente resolvido. A fé lhe dá um nome, eternidade, e quiçá, quando chegar a nossa vez, descubramos que aquilo que chamávamos de despedida era apenas a outra face de uma chegada. Porque, para quem fica, a morte é uma partida. Para quem crer, é antecipação de um encontro. E, entre as duas, permanece o amor — a única presença que a ausência não consegue sepultar.
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