DAS HISTÓRIAS CONTADAS À LITERATURA NACIONAL: "HISTÓRIAS DE VÓ" LEVA MEMORIA DO CERRADO A SELEÇÃO BRASILEIRA.

DICA I LIVRO de Alice Agnes, representa o Tocantins na lista "27 livros para conhecer o Brasil" e aparece ao lado de obras de autores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Conceição Evaristo

Através do livro “Histórias de Vó”, da jornalista, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Tocantins (UFT) Alice Agnes, que foi escolhido pela TAG Experiências Literárias para representar o Tocantins na seleção “27 livros para conhecer o Brasil”, parte da memória guardada pelas mulheres do Cerrado ganha projeção nacional.

Antes de virarem literatura, foram histórias contadas de boca em boca. Passaram das avós para os filhos, dos mais velhos para os mais novos, atravessaram noites, cozinhas, quintais, rodas de conversa e gerações inteiras. Sobreviveram sem precisar de papel porque alguém sempre se encarregou de contá-las outra vez.

A obra tocantinense aparece em uma relação que reúne títulos ligados às diferentes regiões, culturas e identidades brasileiras e inclui escritores consagrados como Conceição Evaristo, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Itamar Vieira Junior.

É como se a seleção desenhasse um mapa do Brasil por meio dos livros. E, nesse mapa, o Tocantins aparece pela voz de suas avós.

Lançado em novembro de 2024, com recursos da Lei Paulo Gustavo, “Histórias de Vó” não nasceu apenas da imaginação literária. A origem da obra está em mais de uma década de pesquisa e, sobretudo, de escuta.

Durante esse período, Alice Agnes recolheu narrativas de mulheres idosas e encontrou nelas um universo transmitido essencialmente pela tradição oral: histórias, crenças, medos, ditados, conhecimentos e explicações sobre o mundo que sobreviveram porque uma geração se encarregou de entregá-los à seguinte.

Ao transformar parte desse acervo em literatura, a autora fez mais do que escrever oito contos. Registrou aquilo que corria o risco de desaparecer junto com suas narradoras. Cobras, ouro, animais e os mistérios do Jalapão

O universo de “Histórias de Vó” é povoado por personagens e acontecimentos que parecem habitar a fronteira entre aquilo que aconteceu e aquilo que o imaginário popular decidiu que poderia ter acontecido.

Há cobras que bebem leite; Potes de ouro amaldiçoados; Pessoas que se transformam em animais;

E segredos sobre a origem dos fervedouros do Jalapão.

Nos oito contos, o realismo fantástico se mistura aos ditados populares, à história e aos modos de vida dos povos do Cerrado. Justamente aqui, reside uma das forças dessas narrativas: pouco importa estabelecer onde termina o fato e começa a lenda. Para a tradição oral, uma história repetida durante gerações também se transforma em uma maneira de contar quem somos.

“Um patrimônio imaterial de valor imensurável”

Para Alice Agnes, chegar a uma seleção de alcance nacional significa também permitir que leitores distantes do Tocantins tenham contato com esse patrimônio.

“É uma honra e uma grande responsabilidade representar o meu estado em uma lista com tantos autores importantes da nossa literatura. Cresci ouvindo as histórias das minhas avós e elas tiveram grande impacto na minha vida. Os saberes das anciãs do Cerrado são um patrimônio imaterial de valor imensurável. Agora, com o livro, um pouco desse tesouro pode ser compartilhado com outras pessoas e continuar vivo por muitas gerações”, afirma.

A declaração ajuda a compreender uma dimensão da obra que vai além de seu reconhecimento literário. “Histórias de Vó” também é um exercício de preservação. Quando a memória ganha papel há uma ironia bonita nessa história.

Vivemos um tempo em que praticamente tudo pode ser gravado, fotografado, filmado e armazenado. Ainda assim, parte importante da memória cultural brasileira chegou até aqui sem arquivos digitais, bibliotecas ou documentos.

Chegou pela palavra. Alguém contou. Outro ouviu. E depois contou novamente.

Durante muito tempo, mulheres do Cerrado desempenharam esse papel sem que seus nomes necessariamente aparecessem nos livros. Foram guardiãs de um patrimônio que não estava em museus: estava na memória.

Com o livro, a literatura oferece agora outra possibilidade de permanência. Quando uma história deixa apenas a lembrança de quem a ouviu e chega ao papel, ela ganha a oportunidade de atravessar fronteiras e encontrar leitores que jamais conheceram aqueles lugares ou aquelas mulheres. Do Tocantins para o Brasil

Sobre a autora

Alice Agnes nasceu no Acre e cresceu no Tocantins. Jornalista, doutora em Antropologia e pós-doutora em Comunicação, é professora da Universidade Federal do Tocantins e construiu parte de sua trajetória acadêmica pesquisando e valorizando culturas tradicionais.

Opinião

Em “Histórias de Vó”, essa formação encontra uma dimensão profundamente afetiva. O livro é também uma homenagem às próprias avós da autora e, por extensão, às mulheres idosas do Cerrado que guardaram e transmitiram conhecimentos, lendas, crenças e experiências.

A presença da obra entre os “27 livros para conhecer o Brasil” acaba produzindo uma imagem simbólica. Ao lado de nomes que ajudaram a literatura a contar o sertão, a Bahia, as desigualdades, as dores e as muitas identidades brasileiras, chega agora uma voz construída a partir do Tocantins.

Alice Agnes é uma voz que começou muito antes do livro e fez a passagem da memória oral para a memória escrita.

Começou provavelmente como começam as boas histórias de avó, quando alguém se senta para ouvir e alguém começa a contar. Alice Agnes fez uma coisa a mais. Escreveu para preservar um acervo que jamais poderia ser esquecido. 

Artigo de opinião originalmente publicado na página 6 do Jornal O Progresso hoje, quarta-feira, 19 de agosto de 2026.